Paixão de um Povo Sofrido. "Crucifica-o, E Daí?"

Quantas vezes, durante a Semana Maior (Semana Santa) celebrada no mundo inteiro, vivenciamos e recordamos o sacrifico perfeito de amor, onde o Filho de Deus, o amado, se entrega como ovelha que é levada ao matadouro sendo entregue pelo seu próprio povo para ser crucificado.

Após mais de dois mil anos, recordando anualmente a memória da paixão do Senhor, neste 2020, a igreja e seu povo volta à vivenciá-la, desta vez, não como de costume por uma semana, mas uma quarentena. Já não mais dentro de nossos templos por meio de nossos sacramentos e rituais, porém de nossas casas - para quem pode ficar em casa - para quem não, de sua labora.

Voltamos à estaca zero de nossa fé. Voltamos ao momento da cruz, ao Getsêmani de nossa humanidade, e este voltar, nos faz reconstruir essa história, entretanto com uma nova roupagem e com novos personagens. E diante do caos e confronto ético e histórico nos questionarmos: o ano é 2020 ou o início da era cristã?

Paixão de um povo sofrido, segundo Luiz Candido.

Naqueles dias, tomando José em suas mãos, levaram-no diante do ministro da Saúde, e disseram-no: “Manda-o trabalhar”; mas, este não tinha poder para isso, então, levaram José diante do palácio da Alvorada e apresentaram-no ao Presidente Bolsonaro.

- O que quereis que eu faça com esse homem?

Os patrões gritavam:

- Manda-o trabalhar?

Mas que mal ele fez? Perguntou Bolsonaro.

E os patrões gritaram desta vez com mais força.

-Acaba com a quarentena e manda-o trabalhar. Se tu não o fizerdes não és amigo de Trump e muito menos da extrema direita.

- Tá ok! Respondeu Bolsonaro.

Então, Bolsonaro mandou levar José para fila do SUS e mandou flagela-lo, fazendo esperar pelo atendimento, o sistema então flagelou José e em sua cabeça colocou uma coroa, não de espinhos, mas de cloroquina.

Novamente, Bolsonaro trouxe José para o lado de fora e apresentou aos patrões, que de seus carros, fazendo manifestações, carreatas, estocando papel higiênico e álcool em gel gritavam: “Manda-o trabalhar. Ele não precisa da quarentena”.

E naquele momento, ao ser questionado pelos jornalistas diante do crescente número de mortes por causa do Covid-19, Bolsonaro mandou que lhe trouxessem uma bacia com água, e lavou as mãos dizendo: “E daí? ”

Enquanto isso, a direita extremista dizia: “Que o sangue deste homem recaia sobre nós e sobre nossos filhos”.

Após lavar suas mãos, Bolsonaro mandou seu Zé voltar a trabalhar, decretando como serviços essenciais: barbearias, salões, academias dentre outros.

José foi trabalhar, tomado de sua cruz, pegou o ônibus e foi contaminado com uma gripezinha para Bolsonaro, mas para ele a condenação de morte, e seguindo em direção ao calvário, em português hospital público, ao chegar lá internaram José entre duas razões, uma a sua direita e outra a sua esquerda, um chamava-se Ciência e o outro Política.

A política fez pouco de José e se aproveitou de sua bondade e honestidade, sem nem lhe dar a assistência que a constituição garantia, já a Ciência, ciente de que seu crime era apenas buscar o bem para vida do povo, enfrentou a Política em defesa de José, mesmo vindo a perder bolsas de pesquisas em áreas como sociais e humanas.

Estando internado, Bolsonaro mandou pregar no topo das manchetes dos jornais, sua completa ignorância e indiferença, dizendo no mais perfeito português: “ Estes são os números de mortos no Brasil 381 Mil ‘E Daí? ’”

Os patrões pediram para que se retirasse as manchetes e que fosse corrigida dizendo que a Itália, Bélgica, Suécia e outros países têm uma população inferior à nossa. Ainda estamos bem! ”

Porém, Bolsonaro disse não.“Minha caneta ainda Funciona e assim ficará. ”

Já na enfermaria, diante da falta de leitos, os médicos tiveram de repartir a UTI, esperando na sorte para ver quem ocuparia o próximo leito, se seria José com seus 60 anos ou Severino 35 anos mais jovem.

A sorte foi tirada e José foi levado à UTI. Estando lá, já não lhe ofereceram uma esponja embebida em vinagre, mas injeções com miligramas de remédios. Aos pés da Cruz, que já não era de madeira, porém, de metal e plástico que recebia o nome de maca, permaneciam de pé Maria – os médicos -  e João o discípulo amado – enfermeiros e técnicos de enfermagem - e enquanto olhavam para José, eles disseram: “És nosso filho, de ti cuidaremos”.

Enquanto isso, seus seguidores passavam pelas ruas e gritavam, “Analfabeto funcional”; “Se és Brasileiro usa a cloroquina”; “Imprensa lixo”; “Acaba com a quarentena”; “Precisamos salvar a economia do pais”; “Fim ao STF”; “Que volte o AI-5”...

José, já cansado e sem forças para respirar, diante de seus pulmões já danificados pelo vírus, olhou para o teto da UTI e, entubado, no seu pensamento deu um último grito, “Meu Pai, porque me abandonaste? ”

Enquanto os patrões diziam: “Comunista! ”

Após horas de luta na UTI, José cansado, inclinou sua cabeça e entregou seu espírito dando o último suspiro, os médicos correram e já não trouxeram uma lança, contudo, sim, o desfibrilador, onde com um choque atravessaram seu coração, o qual já não batia.

Enquanto isso do lado de fora, Dona Maria e seus filhos choravam e rezavam por ele.

José, então, foi decido de sua Cruz e envolto não em tecidos de linho branco, porém, em plástico preto, do qual levaram-no e o sepultaram em uma vala comum que acabara de ser aberta.

E o que restou foi a fé e a esperança da ressurreição. Tudo isso aconteceu, para que não se quebrasse a economia.

- Palavra de Bolsonaro. “E daí Brasil? ”

Caros amigos, todos os dias vemos Jesus ser condenado a morte pelo novo Pilatos, e seus seguidores gritam e se banham neste sangue inocente que é derramado, e assim, depois de dois mil anos, voltando a crucificar Jesus, nas Marias, Josés, Damiãos, Helenas, Joaquins e milhares de brasileiros que deixam suas famílias e encerram suas histórias, e a única resposta que recebemos é: “E daí? ”

O Jesus hoje é o pobre sofredor; Caifás o ministro da Saúde, Pilatos passou a ser chamado de Bolsonaro; o povo que gritou por Barrabás são aqueles que gritam para flexibilizar a quarentena; Os soldados são todos aqueles que comungam deste pensamento genocida do presidente. O lavar as mãos é o triste: E Daí? Maria e João os médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem; a Cruz passou a ser a maca de nossos hospitais.

E diante disso tudo nos falta um personagem fundamental no mistério da salvação. Nos falta a caridade imposta a Simão - o Cirineu - do qual ficamos a nos questionar: o que você será? Mais uma na multidão a gritar crucifica-o e encerra a quarentena, ou o novo Simão de Cirene que por ali passava ajudou a carregar a Cruz?


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