Silêncio
Olá,
tudo bem? Espero que sim. Como dito em nossa última publicação, durante estes
dias de pandemia e isolamento social, recordei uma pequena parte, porém significativa,
de minha existência, minha inclusão ao Carmelo.
Enquanto
ex-carmelita, me acostumei ao silêncio a oração e a solidão, o SOS carmelitano,
que como dito anteriormente ao realizar uma explanação diante da irmã solidão,
não se trata de um pedido de socorro, ou talvez sim, depende de cada
perspectiva.
Diante
deste fato, resolvi compor três publicações, refletindo de forma pessoal, não
dogmática ou cientifica, estes três estados existenciais a nossa sociedade,
humanidade e espiritualidade, do qual o Silêncio e a Solidão são aqueles que
mais nos apavora. Neste tempo de pandemia e isolamento eles são constantes, e a
Oração torna-se muitas vezes nosso porto seguro, mas está, deixarei para a
terceira publicação.
Como
supracitado, hoje iremos refletir um pouco sobre o silêncio e seu significado
tanto humano quanto divino, por meio de minha experiência para com estes irmãos, que à nós
ocidentais é assustador e abominante. Vamos lá?
Ao contrário da maioria das pessoas de nossa
sociedade, sempre amei o silêncio e o vivenciei mesmo antes de minha ida ao
Carmelo, dele, fiz meu tribunal particular, onde o mesmo exerce o papel de
advogado, promotor, júri e juiz, de onde não posso jamais fugir ou me
distanciar, do qual, qualquer sentença dada, é sumariamente executada em
questões de segundos, seja assumindo o papel de culpado ou inocente. Sendo
assim, irei explanar sobre os dois tipos de silêncio que vivencio, os quais
chamo de humano e divino.
Sem
mais delongas, desejo nesta reflexão falar um pouco mais do silêncio que
inquieta, que incomoda e nos assombra, o “Silêncio Humano”, o homem ao
desenvolver-se socialmente não aprendeu a silenciar para escutar sua voz
interior, e por vezes acaba surtando ao ouvir-se ou simplesmente ignorando sua
realidade e miséria.
Se
a solidão traz à luz nossos monstros interiores e as piores misérias, o silêncio
tem o papel de comunicar, de dar voz aos monstros que habitam em nós, a partir
daí compreendemos nossa sede pela quebra do mesmo, pois tendemos a fugir e não
querer ouvir, visto que, se pararmos para tal, precisaremos aceitar e assumir
nossas desventuras.
É
diante da voz dada a esse monstro interior, que nos deparamos com o silêncio
humano, aquele que nos desnuda de nossas máscaras sociais e nos coloca
diante de nós mesmos, nos fazendo escutar. Escutar nossas falhas e frustrações,
aquilo que nada nos traz orgulho, porém que são verdadeiramente necessários
para nossa evolução.
Este
silêncio nos remete a aceitação, e por meio desta aceitação à autoconstrução de
novos ideais e de um novo ser, ora, não nos adianta escutar e reconhecer nossas
falhas, se não tentarmos corrigi-las, você não acha?
Socialmente
tendeciamos a sermos perfeitos, ou pelo menos a passarmos esta imagem de
perfeição, e, por isso, o silêncio nos é tão assustador. Nele vemos nossas
imperfeições, e para esconder ou fugir utilizamos de barulhos constantes que
não nos permite silenciar. Graham Turner em seu livro Silêncio Interior: a
chave para encontrar o equilíbrio e a espiritualidade, nos recorda que “O
barulho passou a ser nossa configuração padrão, e o silêncio um conceito cada
vez mais estranho.” Logo compreendemos tamanha repulsa a este estado
existencial que é silenciar.
Vivemos
cercados de barulho em nosso dia-a-dia, trânsito, música, trabalho,
universidade, família, onde acabamos por não conseguir silenciar, e como já
sabemos, o homem em sua plenitude se adapta a tudo, inclusive ao barulho, mas
ao mesmo tempo que ele aprende ele também desaprende, e foi neste adaptar-se
por meio do aceitar o barulho e aprender com ele que o homem desaprendeu a
viver o silêncio.
É
exatamente neste momento que nos inquietamos, que nos incomodamos, porém não
com o barulho a nossa volta, mais com a falta dele, utilizamos este barulho
para nos revestir de máscaras, tentamos fugir de nós mesmos. O silêncio
humano nos coloca frente a frente com nosso ser, a nossa essência, e aí
sim, quando nos deparamos conosco, passamos a enxergar nossas dores, nossas
feridas, nossas frustrações e como falei anteriormente nossas misérias.
Desta forma, acabamos nos
tornando reféns de nossos barulhos, por medo ou vergonha, e diante desta pandemia,
mais do que nunca, o silêncio está a gritar em nosso interior, e não sabemos
como fugir ou lidar com ele, buscamos as falhas em nossos colegas de isolamento
e não assumimos as nossas. Claro, isso é para quem está com alguma companhia
neste isolamento, nos tornamos egoístas por não saber aceitar a diferença do
outro e acharmos que apenas nós estamos certos, e sendo assim, logo nos
prendemos ao barulho por negação ou medo.
E
aqui já deixo alguns questionamentos. Você está pronto para se escutar? Você
está pronto para ouvir seus próprios erros e tentar corrigi-los? Ou você irá se
torna refém do barulho e não irá ressignificar este momento que deve ser tão
pessoal para teu crescimento? A decisão é tua.
Seguindo
nossa reflexão desejo partir agora para outro silêncio, que tem se feito
constante e mais forte em mim neste período, porém pretendo ser o mais breve e
sucinto possível.
Por
diversas vezes me vi em silêncio a questionar minha existência e o cuidado de
Deus para comigo, isso no que se refere ao “Silêncio divino”, aquele que
alimenta minha fé e crença, por meio dele e da passagem da brisa suave, onde aprendi
com o profeta Elias, que se viu diante de uma tempestade de fogo e de um
terremoto, não encontrando nestes gigantes fenômenos a presença de Deus, porém,
ao passar uma brisa suave que lhe toca a face, ele se prostra e ali, encontra a
presença de Deus.
O
silêncio divino, é muito mais do que um deixar de falar fisicamente, ele
é transcendente à nossa miséria humanidade, é o silenciar o coração para ouvir
outro coração mais forte e que bate constantemente de amor por nós.
Por
meio dele aprendi a perceber a presença de Deus, como Elias, nas pequenas
coisas, no germinar de uma planta, ou simplesmente numa pequena formiga a
carregar seu alimento. Aprendi a escutar a voz de Deus a exemplo do que nos
ensinam os santos, “No silêncio, Deus nos fala ao coração”, e assim vivo minha
fé, e me enamoro de Deus.
Caríssimos
colegas, mais do que o temor do não ouvir, é o aceitar não se ouvir. É preciso
que aprendamos a silenciar para ouvir a necessidade do outro e a nossa, o
silêncio, ao contrário do monstro que fizemos dele, é na verdade um grande e
exemplar mestre, que nos ensina a viver de forma melhor e digna, sem receio de
nós mesmo, como dizia Albert Einstein “Penso noventa e nove vezes e nada
descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio - e eis que a verdade
se me revela. ”
Que
nesta pandemia possamos aprender com a verdade interior que o silêncio nos
revela e assim, possamos retornar ao convívio social, sem precisar do barulho
que nos afasta de nós.
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