Solidão

Estes dias recordei um momento em particular de minha vida, minha estada no Carmelo, onde aprendi um pouco mais sobre a Solidão, a Oração e o Silêncio. Refletindo um pouco sobre a pandemia e estes sentimentos, atitudes ou comportamentos que nos assolam, resolvi fazer uma reflexão por meio de momentos que vivenciei, com três publicações referentes ao SOS carmelitano que sempre experimentei antes e depois do Carmelo.

Este SOS não se trata de um pedido de socorro; pensando melhor, pode sim, ser considerado um, mas se dará de acordo com cada perspectiva e experiência, porém, aqui será apenas meu conhecimento sobre o Silêncio, a Oração e a Solidão, três irmãos existenciais que nos causam certos sentimentos. À priori, desejo falar sobre a irmã Solidão, esta, que nestes dias tenho convivido de forma mais intensa.

Lembro que, o que aqui está não são preceitos dogmáticos ou científicos, apenas vivencias e concepções pessoais deste indigno e pretensioso projeto de escritor. Para falar sobre a Solidão, desejo compartilhar uma história que ocorreu entre um grupo de amigos que se auto denominam cardeais.

Certo dia ao trocar alguns pensamentos com amigos, chegamos a temática da solidão. Diante de tantos argumentos e pensamentos teóricos, filosóficos e espirituais, acabamos por perceber algo em comum a 90% daqueles que faziam parte do pequeno conclave de boteco, ali reunidos para mais uma partilha e passagem de tempo, e com o decorrer da conversa descobrimos que todos temiam a solidão.

Iniciamos um traçar intelectual sobre o que seria esta solidão que a maioria temia. Conceitualmente afirmamos o que nos diz o dicionário, que a solidão nada mais é que o “estado de quem se acha ou se sente desacompanhado ou só; isolamento” – fazendo um pequeno adendo à última palavra do conceito, aquilo que estamos vivenciados durante semanas, um isolamento – e, a partir daí, prosseguimos nosso preâmbulo onde cada qual falou sua temida solidão.

Chegamos a cinco tipos de solidão sentidas pelos cinco cardeais que naquela tarde se encontravam:

1.      O primeiro temia a solidão existencial: esta, nada mais era do que o receio de não encontrar sua cara metade, de acabar sozinho por toda sua vida, sem um amor verdadeiro.

2.      O segundo temia a solidão intelectual: esta, é o medo de não ser correspondido em seus pensamentos e produções científicas, se tornando apenas mais um a falar de um assunto de pouco interessa as pessoas.

3.      O terceiro temia a solidão do esquecimento: esta está intimamente ligada ao sentimento da vaidade, temia-se ser deixado de lado por amigos, colegas, familiares. Para ser sincero, creio que esta solidão é o algoz de muita gente por aí.

4.      O quarto cardeal temia a solidão do último suspiro: esta já conhecemos e com certeza é a causa do pesadelo de muitos mortais, o de morrer sozinho abandonado por todos.

De certa forma a solidão é algo que nos apavora, no retira de nossa zona de conforto e nos coloca diante de nossa existência, principalmente de nossas fragilidades e misérias, e, quando nos vemos nus de nossas armaduras e maquiagens sociais, logo nos envergonhamos e nos sentimos inferiores, e é daí que emana a necessidade da não solidão, da constante companhia, em tese, a necessidade do outro.

Ora caríssimos, se formos analisar as solidões que aqui foram traçadas veremos que todas nos remete à necessidade de alguém ou algo, seja na solidão existencial que necessita de sua cara metade; a intelectual que necessita do reconhecimento da academia e da comunidade cientifica, a do esquecimento que precisa do constante facto destaque, sendo sempre reconhecido e convidado a chegar mais perto por aqueles que compõe sua comunidade, e a solidão do último adeus, esta talvez seja a mais difícil, o morrer sozinho, sem saber se esta solidão está sendo causada pela partida antecipada daqueles que poderiam estar ali ao seu lado no último minuto, ou simplesmente por não ser bem quisto por alguém, logo demonstra ter tido uma vida vazia.

Bom, como podemos ver, por mais assustador que seja a irmã Solidão, e com razão o é, não devemos nos esquecer que as quatro primeiras solidões elencadas representam 90% daqueles que ali estavam em conclave em meio a mais um escrutínio de fim de tarde, 10% correspondia a uma não igualitariedade, e este mero mortal componente do colégio de cardeais que ali estavam, creio que não preciso dizer que era eu.

Sim meu caro Watson, dentre aqueles mortais que temiam a solidão, eu como sempre do contrário amava e amo a mesma, visto que, para mim, a solidão é povoada.

Ora, a solidão fora sem dúvidas minha companheira durante boa parte da infância e da adolescência, e agora na vida adulta também me é de muita valia. Se existe algo que aprendi nestes meus poucos anos vividos, é que sempre devemos buscar um lado bom em toda situação que aparentemente é ruim ou difícil, assim, o fiz com um dos sentimentos mais temido pelos mortais, e, na solidão eu descobrir um povoamento, um povoamento de um em um.

Se formos levar para o contexto espiritual, traria aqui para você enquanto ex-carmelita, a solidão em João da Cruz, que recorda na noite escura da vida a solidão povoada, e em meio a sua solidão ele percebeu que não estava só, mais que Deus estava com ele. Esta eu compartilho e vivencio em minha noite escura, porém percebo em minha humanidade algo que vai além do espiritual de João da Cruz, percebo o meu lado humano.

Na solidão povoada descubro que não estou sozinho, pelo contrário, me vejo diante de meu eu, o eu que tento esconder e negar muitas vezes, vejo minhas falhas, dores, misérias e frustrações, trago a luz do existir ao monstro que habita em mim, e aprendo a conviver com ele, deveras foram as vezes que digladiei comigo mesmo, tentando compreender meu jeito tão peculiar de ser. Como falei, a irmã solidão sempre fora uma grande companheira em minha passagem temporal por aqui.

Não pensem que hoje é diferente, pelo contrário, da mesma forma que cresço, a solidão mostra que meu monstro também cresce e se fortalece, e logo preciso estar sempre em ordem de batalha, preciso assumir meu monstro, reconhecer meus erros e minhas falhas, assumindo as mesmas e tentando reconstruir - creio que já temos uma ideia para nossa próxima dialética - isso é fácil? Seria hipocrisia de minha parte dizer que sim, por isso humildemente assumo que não é.

Porém, o importante é que o primeiro passo está aí, no aceitar do monstro que a solidão apresenta. Você provavelmente deve estar falando, mas o que se tem de bom em lutar contra seu próprio eu? E eu lhe digo, o que não teria de bom nisso? Por meio da solidão me conheço, sei minhas limitações, fragilidades, misérias, e principalmente minha humanidade, da mesma forma conheço meus pontos fortes, minha real alegria, a misericórdia pessoal e o amor próprio que passa a emana por meu eu.

Mais afinal de contas, o que você quer dizer com toda está história?

Ora, como podemos ver, solidão é isolamento, e estamos vivenciando um período perturbador de isolamento e restrição de nossa rotina, daquilo que nos forma em sociedade, nossas praticas pessoais, laborais, recreativas, etc.

Se, num grupo de 5 cardeais, apenas um não teme a solidão e os outro 4 temem, imagine agora durante um período de pandemia, onde nos vemos distantes de quem amamos e do que amamos fazer, mas principalmente, onde nos deparamos com a temida solidão.

Já não nos conhecemos, nem mesmo aqueles com que convivemos, e aí está, a solidão se fazendo presente e nos amedrontando, nossos monstros interiores estão nítidos a nossa frente e não sabemos como lidar com eles. Nos acovardamos, pois nunca tivemos coragem de nem se quer olhar em seus olhos, e a Pandemia no coloca frente a frente com eles.

Esta semana um amigo me mandou uma mensagem, falando que já não suportava ficar dentro de casa, que nada e ninguém lhe entendia, e no meio da conversa perguntei-lhe: e você se entende? E ouviu-se um longo silêncio - vamos de spoiler, silêncio que é o irmão da solidão, será nossa reflexão da próxima semana – ele então percebeu que o que estava perturbando sua paz, não eram apenas as diferenças dentro de sua casa, mas suas misérias que agora eram visíveis, pois, mesmo diante de tanta tecnologia, a solidão o apresentava seu eu, ali despido de qualquer pudor pessoal.

Meu amigo, para podermos encerrar esta primeira parte do tripé carmelita, os quais sempre trouxe em minha vida, o SOS, desejo perguntar a você: a solidão está batendo em sua porta? Você abrirá? Você se permitirá se conhecer? Você se aceitará? Irá enfrentar seu monstro interior e aprender com ele? Irá aprender a tirar o bem do mal, ou se acovardará?

Não faça desta Pandemia um momento apenas de sofrimento e diminuição, torne a mesma num momento de crescimento! Conhece-te! Aceita-te! Ama-te! Aprenda a conviver com a solidão, e tudo logo passará.


Comentários

  1. Querido Felipe, me alegro em perceber sua evolução na escrita e a maneira leve que você encontrou para o tratamento de um assunto tão cavernoso que é a "solidão". Momento mais oportuno não haveria. Continue a produzir seus textos encantadores.
    Espero que ti vá bem!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Tudo bem.

Princípio e Fim

Quanto tempo dura um abraço?