Ao passar de uma brisa suave
Quantos
de nós já escutamos diante de uma despedida a celebre frase “A vida é como uma
vela acessa, que ao passar de uma brisa um pouco mais forte pode apagar
chegando ao seu fim.”
Diante
de nossa atual realidade, vemos diversas chamas se apagando, vemos a luz se
dissipando e as trevas da dor cada vez tomando mais espaço, diariamente, vemos
familiares, amigos e colegas chorando a passagem desta brisa, não forte eu
diria, mas suave, que a irmã morte traz consigo, e junto dela, perdemos o calor
e nos encontramos diante de um abraço gélido e triste.
Esta
realidade dolorida, sombria, triste e por vezes sem sentido, nos causa pavor e
medo, porém, mesmo assim insistimos em dizer que tudo está bem, que logo vai
passar, tentamos nos esconder e fugir de nossa nova normalidade, apesar de não
concordar com esse termo, é o que vivemos agora.
Uma
realidade anormal, dura, insensível, onde pessoas se tornam números e dados
estatísticos, onde a vida para uma parte da população perdeu seu valor humano e
para outra se tornou um símbolo de luta e resistência.
Hoje
nos vemos digladiando em um cambo de batalha que não deveria existir, nos vemos
na guerra da vida contra morte e da economia contra a vida, pois provavelmente,
morremos, ouso dizer, e não percebemos que nossa morte já não se trata apenas
do fim físico, mas humano, espiritual e sentimental.
Mas
não é sobre política, ou posicionamentos políticos que desejo aqui falar com
você, é sobre algo muito mais forte que a esquerda ou à direita, ou até mesmo da
economia, do qual não desvalorizo sua importância, mas condeno a escravidão
humana que ela gerou. Quero lhe convidar a refletir sobre o real valor da vida,
e o que estamos fazendo com ela, desejo lhe convidar a pensar.
Onde foi parar a luz das chamas que a
brisa suave ao passar apagou?
Você
já parou para se perguntar isso? Deveras choramos, gritamos, nos desesperamos
quando a chama de velas próximas a nós se apagam, a dor não nos permite
enxergar a beleza desta partida, e nos permitimos assim, ficar envoltos em meio
as trevas da dor e da não aceitação.
Ora,
se nossas vidas são como uma vela acessa que ao passar de uma brisa suave se
apaga, ou que ao chegar ao fim do pavio se consome totalmente, e essa segunda
opção nos é mais agradável por assim dizer, onde está, a luz que aquela vela
partilhou? Ela se foi por completo? Ou queimou outras velas, trazendo mais luz
ao mundo?
Desde
o início desta terrível e dolorosa pandemia, perdi amigos, colegas, afilhados,
mentores, pessoas que sempre admirei e amei, algumas das quais não tive grandes
contatos pessoais, mas sim filosóficos, teológicos e humanistas, que muito me
ensinaram e ajudaram a ser luz em meio as trevas.
Caríssimos,
meu convite nesta semana a você é a algo muito difícil, apesar de não parecer,
é um convite a um processo de ressignificação, de olhar com um novo olhar, a
enxergar a luz em meio as trevas da dor, a ver e acolher a irmã morte, não como
um número estatístico ou um filme de terror, mas sim, uma mestra do melhor
ensino.
Durante
séculos, o homem se perguntou e busca o sentido da vida, e durante esta longa
caminhada, tem esquecido do principal, o viver. Se a vida tem algum sentido,
independente do religioso que me é tão forte e afável, este sentido eu diria
que é viver, é amar, é cuidar, é estar ao lado, e no final da caminhada, quando
nossa vela queimar até o fim, ou simplesmente se apagar ao passar de uma brisa
suave, podermos olhar para o lado, e perceber que fomos luz em meio as trevas,
e mais do que isso, podermos perceber, que demos luz a novas luzes, que com
nosso testemunho, irão continuar a iluminar o mundo acendendo a chama de novas
velas, compartilhando da chama do amor que nos alimenta.
Neste
último final de semana, a igreja do Brasil, ou melhor, a igreja universal, nas
palavras do Pe. Paulo Ricardo, perdeu uma de suas colunas, perdeu uma vela
simples, porém que queimava com o mesmo vigor de um círio pascal, e enquanto
chorávamos e lamentávamos esta perda, nos deparamos com diversas frases e
pensamentos deste grande pastor, das quais desejo compartilhar duas.
A
primeira frase que diz muito respeito ao sentido de viver é, “Entregar a vida por uma causa que vala a
pena”, você está entregando sua vida a uma causa que vale a pena? Você está
sendo luz em meio as trevas? Você tem iluminado o caminho de quem precisa, e
aquecido quem está com frio? Qual o sentido que você está dando a sua vida?
Nestes
últimos meses, temos percebido, o quanto a vida tem valor, e o quanto nós não a
valorizávamos, pelo contrário, o quanto nós brincávamos de deuses e nos
sentíamos imortais, e hoje mais do que nunca a frase carpe diem quam minimum credula postero
(aproveita o dia e confia o mínimo possível no amanhã) fez tanto sentido, sua
entrega tem sentido?
A
segunda frase diz respeito a ressignificação do que vem ser a morte, “A vida é uma semente. A morte não é o fim,
mas um desabrochar para a eternidade, é um verdadeiro nascimento”. Para a
fé cristã católica, a morte no dizer de Teresinha não é o fim, mas o começo, e
Dom Henrique soube viver isso muito bem, ele acreditou e viveu como uma semente
que com suas palavras e testemunho germinou no coração de tantos fiéis, que
caiu em terra boa e deu frutos, ele foi luz em meio as trevas e partilhou de
sua luz com o mundo.
Independe
de sua profissão de fé, de sua religião, lhe convido a refletir sobre essas
duas frases, a ressignificar a chama que se apagou, a olhar o mundo e pensar, você
tem colocado sua vida em algo que vale a pena? Você tem feito de sua vida uma
semente que germinará e dará bons frutos, ou você simplesmente está deixando o
tempo passar?
Que
nossa vida possa valer a pena cada segundo, que possamos ser luz em meio as trevas
e assim, se entregar a uma causa que valha a pena, e esta causa é a vida, tão
preciosa e frágil vida, não permitamos que as chamas que se apagaram nestes
últimos meses tenham sido em vão, que mesmo em meio as trevas possamos ser luz
e partilhar a luz, só assim tudo valerá a pena.
Aqui
neste momento, estou fazendo com que as chamas que se apagaram não tenham sido
em vão, pelo contrário, estou compartilhando da luz que recebi e me fez ser
luz, e você, irá compartilhar desta luz com o mundo também?
In
Memória – Dom Henrique Soares da Costa príncipe da igreja.
In
manus Tuas, Domine.
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