Princípio e Fim


Olá querido e amado irmão, escrevo-lhe sobre dois sentimentos e certezas dos quais, em nossa humanidade, são presentes e constantes, porém um mais forte que o outro, e um deles sempre nos parece esquecido, mas quando aparece nos impele ao medo, por isso eis a questão primordial desta reflexão, porque temer?

Se, outrora o sentimento de princípio e fim nos é certo, em meio a nossa profissão de fé é bíblico, e em nossa humanidade fora, por diversas vezes, o cerne da literatura, porque temer?   

Caríssimo, hoje recordamos teu início e nos aproximamos de teu fim, como é belo e assustador poder dizer estas palavras, mas como é magnifico poder contemplá-las, neste dia estás a receber centenas de mensagens de felicitações por concluir mais um ciclo de tua existência, mas, e quanto o aproximar-se de teu fim, estás preparado?

Não desejo felicitar-te pelo homem que hoje és, muito menos pelas ações que realizaste enquanto homem ou enquanto cristão, mas sim, lhe convidar a comtemplar o teu incerto amanhã, visto, que o hoje está a encerrar-se e o amanhã a bater a tua porta. Então, por um instante, vamos juntos comtemplar o caminhar, e assim, saberemos se teu futuro está bem formulado.

Comtemple esta história.

Em uma pequena ilha morava um pobre e solitário senhor, que de lá saia sempre em busca de companhia, porém retornava sozinho. Certo dia este senhor ao sair para mais uma busca, encontrou um jovem e belo rapaz, que acabara de concluir seu curso de medicina e ficara noivo de sua amada, que cresceram juntos desde a infância e procuraram projetar seu futuro.

Agora que estava concluído o curso, o mesmo rapaz resolve pela primeira vez após longos anos de estudo sair com sua amada para celebrar juntos a conquista que se realizara, principalmente agora que eles tinham todo o futuro pela frente.

Em seu caminho o senhor resolveu seguir e espreitar o jovem formando, sem que o rapaz soubesse ou percebe-se. Após andar algumas quadras o rapaz foi surpreendido ao atravessar a avenida por um carro desgovernado que o atingiu, levando-o ao chão, foi neste momento que o senhor pôde aparecer para aquele belo rapaz e conversar com ele.

Sem entender nada do que acontecera, o rapaz viu ao seu lado um senhor cheio de rugas, que acusavam os sofrimentos diários de alguém que muito trabalhou, um semblante cansado deixado pelo tempo, que estendendo sua mão, o convidou a fazer uma pequena caminhada de encontro a um amigo.

E assim foram, o jovem rapaz sem nada entender e assustado seguiu o senhor em direção a um jardim que existia ali próximo ao local de seu recente acidente, num pequeno parque no centro da cidade, ao chegarem lá encontraram outro rapaz, muito elegante de pele vívida e rosada, com um belo sorriso e dentição perfeita, com uma beleza e jovialidade jamais vista pelo recém-formado médico, e vestido de forma impecável, tal qual um príncipe.

Os dois convidaram o jovem a sentar-se e começaram a conversar sobre o rapaz que chegara ao término de seu existir sem nem perceber, confuso diante de tudo aquilo, o rapaz perguntou quem eram aqueles dois, e o jovem em seu ímpeto foi logo dizendo.

- Eu, seu tolo! Eu sou o Princípio não percebes o quanto sou belo, forte e imponente.

E o senhor se dirigiu ao rapaz e falou.

- Ora meu querido, eu sou o Fim, perdoe-me meus trapos e falta de tanta eloquência a muito tempo desci do pedestal de vaidade e orgulho que o tolo Princípio se permite estar.

- Quanta deselegância seu velho tosco, como ousa falar de mim assim. - Protestou o Principio.

 - Meu jovem, estamos aqui para lhe apresentar sua vida, do Princípio ao Fim e assim lhe preparar para a vida nova que se iniciará, ou o tormento eterno. Tudo dependerá de sua consciência e do que você teve por vida.

E assim o Princípio iniciou sua alocução, como um importante Juiz, que do alto de sua arrogância, se dirigia ao demais com um olhar de julgamento e superioridade.

- Meu caro Fim, eis diante de nós um jovem dedicado, belo, forte, inteligente, que muito se dedicou e soube projetar sua vida de forma impecável, bom namorado e filho perfeito.

 E assim prosseguiu seu discurso mostrando o quanto aquele jovem era um bom rapaz, quantos prêmios recebera, e sua impecável e perfeita pontuação entre os colegas de classe, sempre em primeiro lugar nas seleções mostrando que seria um profissional exemplar e correto que poderia até descobrir a cura para o câncer se ele ainda tivesse tempo.

Quantas noites ele sacrificou para poder estar no topo, festas, jantares em família, datas comemorativas, momentos até mesmo da vida de sua noiva, sacrifícios que foram necessários para que chegasse ao sucesso, coisas que todo homem de sucesso, como eu, pode e deve fazer, ser brutal em suas ações sem sentimentalismo pois desejamos construir um futuro sólido e perfeito como somos eu e este jovem rapaz.

O Princípio mostrou ao pobre senhor que aquele jovem era um projetista, e havia projetado toda sua vida como um esplêndido relógio suíço que gira suas engrenagens de forma perfeita e sincronizada, sem a menor falha.

E o senhor, em sua plena sabedoria que apenas o tempo pode dar, interrompeu o impecável discurso do Princípio que, como todo jovem, cheio de força e energia orgulhosamente tecia.

- Meu caro Princípio, que coisa boa e quantos feitos este jovem tem, quantas proezas e sacrifícios para ser o melhor em tudo que fez, e quanta maestria, você não acha?

-Logicamente que sim meu estimado Fim.

- Mas me responda, o que dizer dos dias de solidão pelo qual ele passou, quantas vezes ele foi orgulhoso e se negou a pedir ajuda, pelo contrário, se sacrificou muito mais, e por que? E para o que?

E continuando suas observações o Fim relatou quão poucos amigos aquele jovem tinha, e o quanto ele era solitário e triste, que os poucos amigos que tinha sentiam pena dele e não conseguiam ajudá-lo a viver e não projetar, quantas vezes sua noiva chorou em segredo por causa da negligência dele para momentos como aniversário de namoro, primeiro beijo, a música dos dois, entre tantos outros momentos que os dois viveram, porém, em verdade, quem viveu foi apenas ela, pois, ali ele sempre esteve apenas fisicamente.

- Me responda querido Princípio, de que adiantou tanto sacrifício? Quantas noites mal dormidas, frustrado com os “nãos” que recebera e com as falhas que cometera?

- Falhas, que falhas? Não seja tolo seu velho, foram sacrifícios necessários, ele nunca falhou.

- Meu jovem Princípio, não se permita cegar pelo orgulho e pela vaidade, nem você e nem este jovem tiveram a humildade de reconhecer suas falhas e aprender com elas, pelo contrário, quando ele recebia um não ou errava descontava em sua noiva e familiares, era rude e violento para com eles, quantas vezes sua mãe chorou e sua namorada teve medo dele.

 E de repente como que num passe de mágica o velho pobre e encurvado mudou sua aparência e crescera diante dos olhos dos dois, os deixando com medo, e vociferou em alto e bom som.

- Tanta juventude perdida! Maldita seja a arrogância e sentimento de imortalidade! De que adiantou procurar a perfeição passando por cima de seus sentimentos, se recusando a enfrentá-lo, a chorar suas perdas e assim aprender com elas, a ver sua noiva como uma companheira não um troféu? Estúpida aparência e máscara que te fez escravo da infelicidade! O tempo acabou e nada nem ninguém te sobrou. Porque temer? Por acaso com tanto conhecimento não aprendeste que o importante era viver?

E como um leão a rugir, indo de encontro a sua presa, o Fim se preparava para atacar o jovem infeliz que não aprendera a viver. Eis que o jovem desperta no leito do hospital após o acidente que sofrera, e percebe que tudo não passou de um sonho.

Caríssimo, a vida é um dos DONS mas preciosos que temos por isso a chamamos de dádiva, quantos de nós nos deixamos levar por frivolidades e nos sentimos donos do mundo, acabando por esquecer que precisamos cuidar, mas também que precisamos de cuidado.

Encerrar um ciclo de vida e dar início a outro é muito mais do que grandes ações e prêmios que podemos receber, é saber viver, em cada momento, principalmente nos pequenos gestos, é saber admirar a chuva que cai e se deliciar com o cheiro da terra molhada, é sorrir das piadas bobas e ser bobo perto de quem amamos.

Os sacrifícios só terão valor se forem sem temor de viver, de amar, de perdoar, de estar em buscas dos sonhos, de se superar, aprendendo com os erros, sem medo de chorar, e sim se erguendo e voltando a tentar. Nem todos como o jovem de sucesso tiveram uma nova chance de perceber que o real sucesso não está na fama ou nas riquezas que o mundo pode nos dar, mais sim no processo contínuo de recomeçar.

Ciclos se encerram e ciclos se iniciam, a nós, só cabe viver e aproveitar cada minuto e segundo deste novo recomeçar.

 

Este texto é dedicado ao meu irmão Edmar.


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